Do filósofo, Raoul Vaneigem


Ainda não tinha acabado de ler este texto e já uma voz interior me dizia que era indispensável partilhá-lo, quão actual e esclarecedor é, sobre o tempo tormentoso em que estamos a viver.

A meio do texto, lemos:

“Vemos a maioria ( O Zé, digo eu ) consentir a anormalidade das suas mentiras, vêmo-la aceitar as reduções de salários, vergar-se sob a ameaça do desemprego, afundar-se no desespero, plebiscitar os demagogos, fazer de cães dóceis que rosnam baixinho em vez de  arriscarem a aventura da vida e do desejo”

Raoul Vaneigem, não é apologista da Democracia Representativa, porque, então diria: “cada povo tem o governo que merece”(Joseph-Marie Maistre) e não “rosnam baixinho em vez de  arriscarem a aventura da vida e do desejo”, pois mas os filósofos não seguem tendências, fazem o seu próprio caminho.

Mas vamos ao seu texto publicado há já longo tempo.

«Como pudemos chegar a esta fúria económica que remete o planeta para a avidez financeira, não tolerando rasto de vida que não mereça ser sacrificado no altar do lucro, pilhando os recursos humanos, animais, vegetais e minerais, com uma raiva lucrativa que é a própria essência do niilismo e do terrorismo?

O poder do dinheiro e o dinheiro do poder sempre foram inseparáveis. A loucura do dinheiro e do poder desenfreado caminham lado a lado, fustigados pela avidez ascética e pelos prazeres reduzidos aos dejectos da carência afectiva. No seu rasto, o dinheiro sempre atraiu o sangue, a corrupção, a violência. Os privilégios exorbitantes que lhes são doravante consentidos, acrescentam o ridículo ao odioso.

Os poderosos de outrora não desperdiçavam uma oportunidade de fazer uma despesa tão sumptuária quanto tola. Os seus festins e bailaricos ostentatórios exibiam com cinismo, perante as multidões exploradas, admirativas e frustradas, o fausto já putrefacto dos seus prazeres mercenários. Ontem compravam uma cavalariça, hoje cavalgam o dividendo ao domicílio, o telemóvel enxertado no próprio ouvido ou no do adulador que os bajula.

Tomando à pressa o tempo de sujar o apetite universal com o lucro da alarvidade mercantil, já faltou mais para se enfrascarem com vinho Pétrus, deglutirem de uma assentada uma onça de caviar, caçarem de metralhadora (foi oficialmente proibido atirar sobre os índios da Amazónia), entregarem-se à fornicação nos haréns da frigidez afectiva. Escravos de uma substância morta, que alimentam com o seu vão e patético frenesi, apenas concebem a vida mutilada.

Estivessem sozinhos, entregues à auto-mortificação, e não teríamos de fazer nada, mas não, pois reinam pelo medo e pelo desespero que os habitam, que propagam como uma semente de morte. Longe de conseguir pôr este engenho fora do seu alcance maléfico, vemos a maioria consentir a anormalidade das suas mentiras, vêmo-la aceitar as reduções de salários, vergar-se sob a ameaça do desemprego, afundar-se no desespero, plesbicitar os demagogos, fazer de cães dóceis que rosnam baixinho em vez de  arriscarem a aventura da vida e do desejo. De que precisarão então para aplicar impunemente o seu programa de devastação lucrativa? Apenas que sejamos iguais a eles, tão vazios, tão inconsequentes, tão mortíferos. Que por nossa própria iniciativa nos acomodemos a uma existência mutilada, que nos atormentemos com os tormentos deles, nos angustiemos com os pesadelos que escarram na incerteza de um dividendo que lhes estrague a digestão. Que estejamos atentos aos boletins de saúde jornalísticos que incitam a comportarmo-nos bem ou mal conforme os negócios piorem ou “a crise chegue ao fim.” Assim, o grito das revoltas sem esperança e as advertências sem efeito misturam-se com as suas vitórias, em que apenas o dinheiro e a morte ganham.

O dinheiro superabundante, usado para se reproduzir, e o dinheiro cuja carência compromete a sobrevivência, têm um efeito comum: matam a imaginação e a criatividade. Onde prima a voz do dinheiro, nada mais se exprime para além do vazio afectivo. O dinheiro tem tudo e não é nada, tudo compra e nada dá. A fé no dinheiro é o credo que assombra os guetos dos ricos, onde ele é mexido sem ser tocado, e os guetos dos pobres, onde ele é perseguido até poder ser alcançado, na noite angustiante da precariedade quotidiana.

Não há homem, nem mulher, nem criança, nem chimpanzé, nem floresta, nem cereal, nem paisagem, em relação aos quais os direitos do comércio não retirem o direito de existir segundo a gratuitidade natural. O sentido humano está votado a desaparecer pela última razão de que não é rentável. Um sistema que oprime o ser humano para extrair uma onça de ouro ou de dinheiro não pode consagrar outra coisa que não o triunfo da morte.

Nunca conhecemos mais nada para além de um mundo absurdo, que vai de apocalipse em apocalipse, dançando a moda da agonia no contratempo do desejo e da vida. Eis porque o sofrimento, inscrito nos fundamentos da História dos homens, está de tal forma estampado no rosto dos recém-nascidos.

É um destino bastante lamentável, aquele de tantas gerações acostumadas a olhar para a morte como o deplorável consolo de uma existência em que os prazeres efémeros se pagam com os piores infortúnios. Mas é também o verdadeiro milagre da humana natureza, que sob o tédio da sobrevivência e a corrosão dos pensamentos mortíferos, subsista um fermento de vida que aspira a germinar, na alegria de um mundo reinventado.» Raoul Vaneigem

Talvez, um dia, quando o Planeta Terra se regenere e dê lugar a um novo ser que em nada se assemelhe ao ser que por cá anda.

 

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Sobre antonilourenco

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