Há médicos que são carrascos


O que pode fazer a diferença entre o ter mais ou menos tempo de vida quando se anda nos locais em que supostamente procuramos fazer a prevenção das doenças  ou tratar aquelas que já estão instaladas no nosso corpo?

Como hei-de começar? É intuitivo, não há outra maneira, mesmo que fosse pelo fim seria sempre considerado o princípio. Aqui vai:

Corria o ano de 2004 e o Sr. Eu, porque não se sentia bem, pelo contrário, passava os dias em sofrimento quase constante com dores no estômago, pelo menos pensava ser esse o caso porque é difícil para um leigo diferenciar as dores entre a região do ventre e o estômago, resolveu, para saber o que se passava no sistema que transforma quase tudo o que ali entra em líquido e matéria orgânica, fazer uma colonoscopia. Decidiu ir ao local onde era hábito fazer as endoscopias altas, Hospital Santa Maria, no Porto. Desde muito precoce, antes dos vinte anos que sofria de gastrite, uma inflamação no aparelho digestivo.  Como já tinha experiências desagradáveis com sigmoidoscopias entendeu ser melhor fazê-la com anestesia geral.

Médica anestesista preparada, médico com o endoscópio na mão à espera, “deite-se de lado, isto não custa nada, vai dormir um pouco e já está”. E assim pareceu, ouviu o Dr. dizer, já está, pode levantar-se, foi encaminhado para o quarto de banho por uma empregada que parecia preocupadíssima. “O Sr. não feche a porta, sente-se bem?”, “claro que fecho a porta”, “ai não, eu estou aqui, deixe-a encostada”. Fechou a porta e a mulher batia nela com os nós dos dedos e ia perguntando se o Sr. Eu estava bem. Quando  ele saiu do quarto de banho a empregada olhou-o nos olhos procurando ler por ali o seu estado de saúde, se não havia nada de anormal com ele. Depois certificou-se de que o Sr. Eu tinha alguém com carro à sua espera e acompanhou-o até à porta do Hospital.

Dias depois chegou o diagnóstico do exame: Sem sinais de alterações no intestino até onde foi possível chegar com o endoscópio, porque segundo o médico a preparação não foi bem-feita e não foi possível chegar até ao cego. Todo o sacrifício foi em vão.

Como o Sr. Eu continuava com sintomas dolorosos no abdómen não desistiu da colonoscopia e recorreu ao Hospital Geral de Santo António, só possível por andar lá no serviço de proctologia em consulta externa. Esperou o tempo habitual neste País, mas o dia da consulta chegou.

Primeira coisa a fazer: colheita de produtos para exames analíticos

Segunda coisa a fazer: um ECG simples de 12 derivações com interpretação e relatório.

O Sr. Eu tinha estes exames em seu poder há uns 90 dias quando recebeu uma carta do Hospital informando-o de que se devia apresentar no dia 07-09-2006 às 14h00, em jejum.

No dia 07-09-2006 quando o Sr. Eu foi conduzido por uma enfermeira a uma pequena enfermaria dos Serviços de Gastrenterologia foi-lhe dada a instrução para se despir e vestir uma bata que deixava a parte de trás toda visível.  Seguiu-se:

ver estado febril; Aplicar O2 por sonda nasal; ver tensão arterial.

Depois foi levado na cama rolante para um Bloco. Ali Encontrava-se 1 endoscopista, 1 enfermeiro e 1 anestesista. O anestesista fez a pergunta da praxe, “sente-se bem? está preparado?”. O Sr. Eu só disse que sim e ficou à disposição dos técnicos. Começou a colonoscopia que foi monitorizada com: Oximetria de pulso; ECG contínuo; Tensão arterial; O2 por sonda nasal;

Acabada a pequena cirurgia foi levado para à enfermaria ainda inconsciente, acordou passados alguns minutos com uma enfermeira a perguntar se se sentia bem. –

“Perfeitamente, Sra. Enfermeira. –

Óptimo, então vais ficar aqui mais uns minutinhos e depois pode vestir-se e passa para uma salinha aqui ao lado aonde servimos um chá ou leite com bolachas enquanto espera pelo relatório.”-

Trinta minutos depois uma enfermeira veio entregar-lhe uma cópia do Relatório da Colonoscopia que diz o seguinte:

Progressão até ao cego; Boa preparação intestinal; Mucosa com padrão vascular não friável; No ascendente médio pólipo séssil com cerca de 5mm removido com ansa diatérmica; Escara verificada e pólipo recuperado; (1 – Polipectomia com ansa a quente, completa, pólipo recuperado, ascendente.

– Como foi diferente o procedimento do HOSPITAL DE SANTO ANTÓNIO para o Hospital de Santa Maria!

O relatório do exame foi enviado para o médico Dr. J.  S., dos Serviços de Gastrenterologia, que transcreveu numa página A4 o resultado do exame e acrescentou:

“O doente irá realizar colonoscopia de controlo dentro de 3 anos, por ter 2 ou mais adenomas, ou pelo menos 1 adenoma» 1cm ou com displasia alto grau”.

Dr. J. S., rubricou-o e enviou-o para o processo do Sr. Eu.

O Sr. Eu também recebeu uma cópia deste relatório e como achou aquela linguagem incongruente mostrou-o à sua médica. Também ela ficou confusa com o diagnóstico do Dr. J. S. Então o Sr. Eu decidiu pedir uma Certidão do Relatório Médico do Serviço de Gastrenterologia ao Hospital.

Mas como não conseguia deixar de pensar no que estava escrito naquele relatório pelo Dr. J. S. que não fazia nenhum sentido, até em termos “matemáticos”, atente-se: 2 ou + ou pelo – 1?,  entendeu que devia falar com ele e tudo fez para o conseguir. Como conhecia bem os compridos e labirínticos corredores do Edifício Antigo do Hospital, informou-se aonde o Dr. J. S. prestava serviço e limitou-se a aguardar até que ele comparecesse no seu posto. Esperou duas horas.

“Sr. Dr. J. S., eu preciso de um esclarecimento do Sr., permite-me?

Estavam junto da porta por onde ele ia entrar para o seu serviço. Não era pessoa de trato fácil, olhar fixo no horizonte, braços cruzados e ar de predador.

-“Sim?”

– “Sr. Dr., tenho este relatório que o Sr. encaminhou para as consultas externas e estou confuso com o que o Sr. argumentou para justificar nova colonoscopia dentro de 3 anos: –  “O doente irá realizar colonoscopia de controlo dentro de 3 anos, por ter 2 ou mais adenomas, ou pelo menos 1 adenoma» 1cm ou com displasia alto grau”. Isto parece-me difícil de entender.

-“já exerço a profissão há muitos anos e nunca alguém pôs em causa o que escrevo nos relatórios”

– “ Sr. Dr.,  por ter 2 ou mais adenomas, ou pelo menos 1 adenoma, não faz sentido porque é uma frase muito confusa e sem rigor”

– “ Pode faltar aí uma vírgula, eu coloco-a, mas pelas Normas Científicas Americanas a colonoscopia deve ser repetida em 3 anos, em situações normais é de 5 anos.”

Não valia a pena ocupar mais tempo com  uma pessoa que agora tinha os olhos revirados para o chão. Perante tal menosprezo o Sr. Eu disse, “Boa tarde” e seguiu o seu caminho.

A Certidão não demorou muito e dizia o seguinte:

Doente: A…. M……L……..

Processo: 00000000, doente supracitado foi observado no Serviço de Gastro por obstipação e gastrite crónica.

A última colonoscopia realizada em 07 de Setembro de 2006 mostrou pólipo séssil com cerca de 5mm no ascendente médio, de que foi feita polipectomia. O estudo microscópio mostrou pólipo adenomatoso túbulo-viloso com displasia leve/moderada/baixo/ grau e focal e superficialmente grave (alto grau).

Com selo branco do Hospital e assinado pelo Prof. Doutor J….. A……., Director de Serviço.  27/03/07

As consultas de rotina continuaram pelo tempo adiante com a Dra. C….. C……. Desde o início de 2008 que o Sr. Eu começou a falar-lhe na colonoscopia que tinha de fazer, ela dizia ao Sr. Eu que não se preocupasse que já estava marcada desde 2007. O ano de 2008 chegou ao fim. O Sr. Eu estava mesmo a preocupar-se porque há muito tempo que não se sentia bem da barriga, tinha que tomar drogas para as dores e o trânsito intestinal não funcionava sem medicamentos. Perante estas queixas, em Janeiro de 2009 a Dra. mandou-o fazer um exame que consistia no seguinte:

Tomar 1 comprimido por dia durante uma semana e findo esse tempo fazer uma radiografia. Esse exame foi feito no Hospital, claro, mas o Sr. Eu nunca foi directa ou indirectamente informado de qualquer resultado.

As consultas de rotina são marcadas mais ou menos de seis em seis meses. Em finais de Junho de 2009 o Sr. Eu recebe uma carta do Hospital, “finalmente chegou a hora da colonoscopia, pensou,” mas para sua surpresa era mais do mesmo, isto é, voltar a fazer o exame que tinha feito em Janeiro! Mais uma imbecilidade estava a acontecer na burocracia do hospital em que às vezes um só cretino pode ceifar uma ou mais vidas pelos mais diversos e diga-se mesmo perversos motivos como negligência, desleixo, irresponsabilidade e, fiquemos por aqui, tantas são as asneiras que quem lá anda com frequência vai observando.

O sistema nervoso do Sr. Eu abanou-o de cima abaixo. A partir daquele momento só queria estar frente -a-frente com a Dra. C… C…. para responder aquela voz arrastada e tom maternal embora pela diferença de idades pudesse ser filha dele e falar-lhe com convicção, dureza da autoridade moral que lhe advinha do modo passivo com que ela fazia das consultas de rotina uma enfadonha obrigação insuportável, como se não estivesse a ser paga com o dinheiro de todos nós. Chegou o momento de a razão se levantar e erguer a voz.

Nesse dia das consultas de rotina no Hospital de Santo António para a Dra. C… C…., O Sr. Eu não tinha consulta mas sentou-se ao lado dos doentes que esperavam pala sua vez para serem consultados e logo que a médica abrisse a porta do gabinete para chamar o doente seguinte ele aproximar-se-ia.

A porta abriu-se,  a Dra. chamou , “Sra. Manuela Fonseca…” De um pulo o Sr. Eu saltou para o lado da médica ,” Sra. Dra., preciso de falar alguns minutos com a Sra.” – “Com certeza, mas vai ter que aguardar porque tenho as consultas atrasadas”, -” Não faz mal, espero o tempo necessário”.  Atendeu mais dois doentes e chamou-o.

-“Então que o trás cá?”.

– “Esta notificação que recebi do Hospital para fazer este exame”. Ela, a bocejar com o cotovelo do braço esquerdo apoiado na secretária, a palma da mão e os dedos em forma de concha a segurar o tronco inclinado para a frente pelo queixo, pestanejou duas vezes, que foi o tempo de ler a notificação, olhou para o Sr. Eu, e disse: -“ E então, já o fez?”-

-“Sim, em Janeiro quando a Dra. o prescreveu, já lá vão uns meses” . A Dra. Carla ficou por momentos com o olhar fixo na notificação, tempo para encontrar as palavras que lhe pareceram mais razoáveis para tentar justificar aquela incompetência cometida sabe-se lá por quem, e porquê,

 

Continua…

Anúncios

Sobre antonilourenco

Gosto: ler; cinema; blogs; futebol; outros desportos; viagens; de viver.
Esta entrada foi publicada em Sem categoria. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s