Falar sobre Nostalgia do “Outro Tempo” em “tempo de crise”


OFIR: lugar onde a realidade e o sonho se entrelaçaram e para sempre lá ficaram

Do lado esquerdo Oceano Atlântico, do lado direito o rio Cávado, no meio o

PARAÍSO

   

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Nostalgia do "Outro Tempo" em "tempo de crise"

 

Lugares como ÁRVORE, OFIR, JUNQUEIRA, têm (tinham) recantos que são sagrados e jamais sairão da minha memória.

Hoje já não é assim. Tudo está mudado, nada resta daquele sossego, daquela calma que envolvia uma parte do universo em que vivíamos.

 

A evolução dos tempos transformou tudo num aglomerado de casas sem identidade porque na altura em que foram construídas, no pós 25 de Abril de 1974 e até aos anos 80 não havia Planos Directores Municipais em muitas Comarcas e aonde havia não eram respeitados porque a poeira da Revolução ainda não tinha assentado. Revolução que despoletou a fúria dos injustiçados, que era uma boa parte do povo e, ao mesmo tempo, fez surgir os oportunistas que, servindo-se da confusão que predominava no País, vestiram a capa dos arautos da verdade e da justiça e encabeçaram grupos criando confusão para conseguir os seus intentos pessoais, ajudados pela inocente cumplicidade dessa imensa população desfavorecida por uma elite social poderosa que se dizia fraterna e justa em nome de “ Deus, Pátria, Família” e através do poder ramificado nos seu diversos sectores praticava exactamente o oposto, até aí viveram sempre em pobreza e se juntavam a esses movimentos sem terem a percepção de que estavam a ser usados. Em contra ponto com o que acontece hoje, pobreza envergonhada, expressão muito usado agora porque nos últimos tempos as economias dos países têm sido arrasadas pela chamada Economia de Mercado Aberto, que uma das coisas que proporcionou foi fazer com que todos pudessem comprar casa própria mesmo sem poder, e isso originou a descapitalização dos bancos, ou seja o chamado crédito mal parado, ou melhor ainda, a falência de alguns e os cidadãos de tal modo endividados que a actividade comercial ficou moribunda e a acrescentar a isto fraudes gigantescas que começaram nos Estados Unidos e estenderam-se por todo o planeta.

Pobres sempre houve e haverá, mas havia uma classe social remediada,  média e média-alta e os ricos poderosos,  senhores capitalistas ligados ao poder político porque nesse Regime era necessário conhecer os corredores que iam dar aos diversos gabinetes onde se encontravam os senhores que "recomendavam" as leis a fazer na União Nacional, ou seja o Parlamento que não mudou de nome nem de sítio, Assembleia da República, que podiam acabar com um produto que estava no mercado a render bem a uma ou mais empresas de um Grupo e substitui-lo por outro igual mas com uma pequena nuance e homologação diferente, de acordo com interesses ainda mais poderosos dos que eram capazes de influenciar os fazedores de leis.       

Como a opressão tinha sido violenta até esse dia histórico para Portugal, quando a porta da liberdade se abriu aconteceram situações que terão de ser compreendidas no contexto dessa época. Muita gente com a consciência pesada, a “Elite”, abalou desta Terra para outras, aonde dispunham de contas avultadas e investimentos que permitiam passar uma vida sem preocupações monetárias (à custa da pobreza dos que cá ficavam) se tivessem que abandonar o País de origem de um dia para o outro, um tempo que já se previa, o sistema político de então estava suspenso por raízes apodrecidas no marasmo de quarenta anos, com medo da reviravolta política que mais cedo ou mais tarde iria acontecer optaram pela debandada já no dealbar da alvorada do Novo Tempo que iria suceder ao Estado Novo. Aconteceram injustiças e perseguições com algumas pessoas que apenas tinham “cometido o delito” de ser figuras mediáticas na RTP porque pelo seu profissionalismo e simpatia conquistavam os espectadores; na Música (a senha que deu início ao Movimento das Forças Armadas na madrugada do 25 de Abril de 1974 foi a canção E Depois do Adeus, cantada por Paulo de Carvalho) e porque já não está entre nós poderei aludir a Rainha do Fado que viveu dias amargos após essa data que devia ser de felicidade para todos, excepto para os que tudo fizeram para sustentar a barreira do analfabetismo, do confronto de ideias pela ideologia única, viveu dias amargos porque os mais zelosos de um Partido muito ortodoxo entenderam que ela era protegida do regime em vez de lhe reconhecer o valor que mais de meio mundo lhe reconheceu e muito admirou. 

  

Tudo foi diferente neste País a partir do “Dia Seguinte”. As transformações, umas boas outras más, nunca mais pararam. No campo Político os meses que se seguiram foram fervilhantes. Eu tinha lido  “ Os Dez Dias Que Abalaram o Mundo”, do escritor Norte-americano John Reed, que na altura da Revolução na Rússia se encontrava nesse País e viveu a revolução por dentro e achei muitas semelhanças de comportamentos: grupos, muitos grupos de pessoas em diversos pontos estratégicos das cidades, opinavam entre si acaloradamente enquanto os jornais da tarde não chegavam com notícias novas; nesse tempo agitado pela onda do “Verão Quente”, como se dizia, faziam-se edições extras que vinham de Lisboa, de jornais que nasceram nesse tempo, Jornal Novo, Época, A Luta, O Diabo e outros que acabaram todos por desaparecer, na altura estas sucediam-se e as pessoas acorriam a avidamente a comprar para saber se o capitão da facção X – a revolução do 25 de Abril foi organizada por Capitães – tinha feito alguma declaração provocadora à facção Y, que estaria a apoiar o Governo Provisório existente e desse modo motivasse um pretexto para por em causa o frágil equilíbrio em que o poder Político se apoiava: Militares.

 Esses grupos de pessoas afectas aos vários movimentos em embrião, e a Partidos já existentes como o PCP., este já vivia à muitos anos na clandestinidade, PS, formado um ano antes da revolução na Alemanha, PSD, fundado logo a seguir ao 25 de Abril com personalidades que estiveram na União Nacional, Partido único do Parlamento no tempo da ditadura Marcelista e faziam parte da chamada Ala Liberal, e o recém-criado CDS; esses ajuntamentos de pessoas tinham pontos estratégicos aonde se reuniam para ouvir e opinar sobre o desenrolar dos acontecimentos.  

Em muitos momentos os “líderes” de grupos organizados, resolviam ir provocar os partidos chamados “fascistas” que poderiam ser do CDS-PP, PPD-PSD ou então os reaccionários, (PS) -Socialistas. O PS era “só” reaccionário para os partidos à sua esquerda porque à sua direita era considerado como comunista. Toda a esquerda era Marxista, PS incluído. O PCP também tinha os seus inimigos à esquerda: UDP, FUP e MRTP. E como pescadinha de rabo na boca os extremos, da Direita e da Esquerda, atraíam-se como impulsionados por um íman poderoso para o conflito verbal e logo de seguida enleavam-se em lutas como animais irracionais primitivos. 

 

Depois do descontentamento, compreensível, de um Povo que até ao 25 de Abril de 1974 não podia ter conversas nos cafés, nos autocarros, nos restaurantes, em suma, qualquer lugar em que pudesse estar por perto algum desconhecido ou até mesmo de um conhecido que não fosse do núcleo dos amigos certos, assim que esse medo de opinar, conjecturar, desapareceu com o “abrir das portas dos quartéis e os soldados saírem para as ruas e confraternizar com o povo a Liberdade”, foi com compreensão que se assistiu a manifestações de alegria por todo o País. As Rádios de manhã à noite entrecruzavam marchas militares e entrevistas e reportagens com noticiários sobre o que se estava a viver. O povo sorvia avidamente tudo o que ouvia com esperança e ansiedade.

 Democracia era uma palavra nova para a esmagadora maioria das pessoas. Já tinham decorrido 64 anos desde a implantação de I República que teve mais fracassos do que êxitos e acabou em ditadura em 1928, não imediatamente com a entrada de Salazar António de Oliveira Salazarpara o Governo para tomar conta da pasta da economia, (1928 a 1932) ele tinha na altura 39 anos e já era considerado  um  prestigiado  economista, e vinha repor as finanças do País em ordem, já que as convulsões do regime republicano implantado em 1910, depois do assassinato do Rei D. Carlos e seu filho na estação de Santa Apolónia, tinham destruído a parca economia que o País possuía – a nossa Monarquia sempre foi incompetente, e subalterna da Monarquia mais poderosa, Inglesa,  endossando para ela as o que de mais valioso  trazíamos do Brasil, Minas Gerais, o ouro.  Mais tarde quando compôs  as finanças deixou esta pasta em 1932 e passou a Presidente do Concelho de Ministros. Foi então que começou a revelar-se o pequeno ditador que acabou ao lado dos maiores do seu tempo. Benito Mussolini foi o seu modelo de virtudes pois foi dele que retirou as grandes linhas orientadoras da sua política para Portugal. Criou a Polícia Política, P.I.D.E. e quando era necessário, no seu ponto de vista, destituía ministros e ficava com as pastas, chegando de uma só vez a destituir cinco ministros e abarcando os respectivos pelouros. As prisões iam enchendo com os que resistiam ao regime do ditador, até havia o delito de opinião que era punido com prisão e sevícias das mais severas. Salazar foi aperfeiçoando cada vez melhor a Ditadura até controlar TUDO: imprensa, organizações culturais de todos os ramos desde o Teatro, Cinema, Literatura e afins. Depois dos Pides criou os Bufos, que eram os ajudantes dos Pides e assim instalou o medo e criou a segurança necessária ao País para que tudo estivesse bem ordenado. Quando se apanhava alguém ou algum movimento suspeito de subversivo era logo encaminhado para o lugar mais correcto: prisão especial, P.I.D.E., e respectivo interrogatório pelos métodos mais exigentes para o efeito.  

Assim foi a ditadura de Salazar e depois, mais seis anos, Caetano. Portugal já não podia mais.    

 

 

A Democracia foi-se instalando e os Governos Provisórios, que foram seis, deram lugar aos Governos constitucionais.

Mas uma nuvem da cor do chumbo das espingardas passou e levou esses ideais. O tempo é inexorável e só tem um caminho: continuar. Os anos das comemorações do 25 de Abril na Assembleia da República foram-se sucedendo e hoje è apenas uma rotina para a Direita e uma recordação romântica e nostálgica para a Esquerda.

Nas bancadas da Assembleia da República vêm-se os Capitães da Revolução dos Cravos, mas agora com as estrelas de Tenentes-Coronéis e Generais, com cabelos brancos, outros calvos e rostos pesados pelo passar dos anos.  

Ainda há resistentes mas são cada vez em menor número. A inflexibilidade do tempo já vai pesando nos que fizeram e viveram empenhadamente o 25 de Abril de 1974. Alguns dos seus principais intervenientes já morreram.  

 

Este País mudou muito, não só por esse marco histórico, conhecido como a Revolução dos Cravos, por ter sido pacífica e simbolizada com cravos vermelhos que o povo colocou nos canos das espingardas quando os militares saíram para a rua, mas também pelas mudanças políticas que aconteceram na Europa.

A nossa adesão á Comunidade Económica Europeia, que mais tarde evoluiu para União Europeia, fez entrar muitos milhões de contos no nosso País, hoje a serem contabilizados pela nova moeda seriam muitos biliões de Euros, deram para mudar a face de Portugal no que se refere à paisagem geográfica. Estradas e auto-estradas estenderam-se rasgando montanhas aproximando mais as Aldeias das Cidades e o Interior do Litoral. Socialmente também houve transformações mas muitos objectivos ainda estão por atingir e, como antes da Revolução, somos um País que não acompanha a evolução dos tempos. Antes estávamos fechados só com as “nossas Províncias Ultramarinas”, envolvidos numa guerra colonialista e “orgulhosamente sós”. Hoje totalmente abertos ao resto do mundo sentimos dificuldades por isso mesmo. Fala-se em falta de competitividade das nossas empresas para fazer crescer a nossa economia; culpa-se a rigidez das leis laborais, o mau desempenho dos nossos trabalhadores, ás vezes chega-se ao cúmulo de se falar em altos salários que estes auferem, que são dos mais baixos da União Europeia. São altíssimos sim, para administradores, directores, consultores, sejam públicos ou privados. Esta elite sim é deveras privilegiada. Muitos surgem do anonimato para o Governo, tornam-se notados na opinião pública muitas vezes por escândalos que despontam nos jornais e têm como “castigo” sair do Governo para administrar uma grande empresa em termos relativos à pequenez da nossa dimensão, com uma remuneração escandalosa e muitas vezes altamente chocante com as posses do País. Os mais “notáveis”, nem sempre os mais competentes, conseguem acumular vários cargos como administradores em empresas do estado ou privadas chegando a ter remunerações mais elevadas do que os seus pares dos países mais ricos.  

Portugal mudou completamente e se fosse possível colocar nos dois pratos da balança o que de bom e mau trouxe o 25 de Abril o prato do lado bom ficaria pousado. Embora se tivesse “construído muito na areia”, o sentido lato desta frase também tem aplicação no sentido restrito, já a seguir se verá porquê, mas o saldo é favorável ainda que fosse só pela conquista do poder crítico que se instalou em todos os Sectores da Vida Nacional. A lei da rolha terminou e hoje, desde o Presidente da Republica ao Presidente da Junta de Freguesia, todos estão sujeitos ao reparo dos media ou populares quer em manifestações de rua ou outros meios. O bem-estar das populações também mudou, mas o atraso em relação ao resto da Europa continua distante. E assim continuará até um possível novo ciclo mudar o rumo da história, como a própria História nos tem ensinado.

 

Por influência dos motivos atrás referidos, toda a tranquilidade e bucolismo desses lugares encantados desapareceram. Hoje estão superpovoados. O encanto das dunas e das extensas praias perderam o feitiço natural do silêncio a pairar. Quando os revisitei alguns anos depois, fiquei amarguradamente triste e com um sentimento de solidão e de perda… …como se algo tivesse morrido… e tinha. A quietude no ar que se respirava, a sensação que nos percorria o espírito como se tudo em redor estivesse suspenso, aquele encantamento sem par… desapareceu na erosão do tempo que tudo mudou  e em mim envelheceu não só o corpo mas… sobretudo a alma. 

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Sobre antonilourenco

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